terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

BENJAMIN

Peço que não subestime meu ar compreensivo e minhas palavras mansas, que não questione meu silêncio, minha quietude. Por favor, não se acomode na minha aparência alegre e na minha voz altiva, na receptividade dos nossos diálogos. Há muitas coisas que não sei. Inclusive não sei se quero saber. Não sei se sei esperar, sei que não sei fazer de conta que não sei. Sei que a alegria da surpresa veio como uma prova de resistência e não sei se vou resistir. De qualquer forma, sei que o tempo é assim, hora bom ora ruim (até faz rima sem a gente querer). Há dias que queria estar em outro estado, geográfico e emocional... Embora longe, vendo apenas com imagens de resolução que põe em dúvida as aparentes belas fisionomias congeladas em anos, ainda assim, não esqueço o que já vi em outros tempos, em requinte de detalhes como sons, cheiros, gostos e iluminação. Apenas peço que não conte com minha meiguice e passividade. Senão, me esqueço que não sei se quero, não sei se espero e se espero inclusive que o tempo se mova. Posso mover-me de onde estou e desbancar todas as aparências Benjamin...

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

2010


Tenho que escrever alguma coisa antes que acabe 2009. Uma mensagem de final de ano, uma reflexão, regras para um ano novo mais feliz... Não sei, mas deve ser qualquer coisa de positivo, de esperançoso, de conotação vitoriosa. Li o que escrevi no ano passado. Devo ser original, não posso repetir os votos nas mesmas palavras, mesmo porque nem a metade do que desejei para mim ou para alguém passou perto de acontecer comigo... Foi um ano duro, de muitas lágrimas, de poucos amigos e pouca diversão. Foi um ano de curar um câncer (curado, graças a Deus), de demissão, de desamor, de desencontro. Mas algo de Maravilhoso aconteceu. Aconteceu em meio a minha luta, força quando eu achava que não podia mais, em meio às minhas lágrimas, as mais lindas palavras que pude dizer em oração, em meio ao desamor, uma força e auto-estima surgida do desconhecido, do desemprego, a criatividade de desenvolver projetos e me tornar reconhecida neles e de trabalhar voluntariamente e descobrir um novo mundo e a recompensa de bem estar que isso causa, no meio de poucos amigos, amigos fiéis. Isso se chama PRESENÇA. Aconteceu o reconhecimento da presença de Deus na minha vida em um ano tumultuado e deserto. Deus providenciou meu sustento, seu Espírito Santo consolou minha dor e enxugou minhas lágrimas, curou minha filha, me deu inspiração... Renovou meu coração, me mantendo em fé e em pé e acreditando num futuro melhor. Do fundo do coração, desejo muito dinheiro no bolso, amor e saúde pra dar e vender, mas diante das crises vigentes neste século onde reina o individualismo, o desamor, a violência, a falta de romance, a solidão, desejo de verdade mesmo que cada pessoa que conheço, saiba reconhecer a PRESENÇA de Deus. Desejo que as pessoas confiem que temos alguém que age em todas as coisas para o nosso bem, alguém que faz novas todas as coisas, que consola nosso espírito, que nos ama e que os quer. E viva o ano novo, novinho em folha, que nunca foi vivido e cheinho de coisas para acontecer! Viagens talvez, um filho, um amor, uma promoção,uma oportunidade maravilhosa na profissão, uma casa nova ou um carro zero, aquela cirurgia plástica, enfim qualquer boa coisa ou várias delas, mas se por acaso nada disso acontecer, que aconteça a linda, viva, iluminada e gloriosa PRESENÇA de Deus na nossa vida! Ele que cuida do que temos de bom e renova as coisas, restaura o coração , faz o sol brilhar depois da chuva e nos dá um novo calendário para nos encher de esperança, de novos planos e recomeçar!

terça-feira, 10 de novembro de 2009

"Entre Quatro Paredes" Jean Paul Sartre

Eu e César Póvero, abrindo o XI Congresso de Psicologia Existencial em São Paulo!

"Entre Quatro Paredes"

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Janelinha


Não era sua primeira vez, mas mesmo tendo passado por isso antes, se sentia ansiosa e com medo. Estava numa situação de tensão e com a tensão somada à ansiedade, disparou a movimentar a língua dentro da boca numa tentativa de empurrar o medo por entre os dentes. Quando percebeu, havia pingos de sangue enfeitando uma folha tamanho ofício, cujo plano de fundo era problemas de subtração. Problemas que para ela, mais pareciam monstros cheios de olhos na cara e na testa e agora, todo pintadinho de vermelho. Perdera, aos sete nos, neste dia, precisamente às 13h30min, seu segundo dente de leite, durante a sua primeira avaliação de matemática, aplicada pela professora Glória, agora nada satisfeita em recolher o teste naquele estado. Obviamente fez hora no banheiro quando a professora pediu que fosse se lavar. Pegou o dentinho, embrulhou no papel higiênico para dar a mãe, que fazia questão de colecionar todos os dentes que haveriam de cair. Lavou e enxaguou a boca. Fez xixi e esperou o sinal bater. A prova deveria ser feita numa outra oportunidade. Ao caminhar de volta para a sala de aula, através do corredor largo cheio de portas nos dois lados, assustou-se com a madre Ângela, uma coordenadora de aparência rude, com certo ar de malvada, onde supostamente foi inspiração para todas as personagens clérigos vilãs, dos variados filmes que haveria de assistir na sua vida. Tremeu de medo. Todos tinham medo dela, de sua cara áspera, seus cabelos escuros e grossos, mal colocados por baixo do pano, seu buço e sua voz grossa. Até mesmo do crucifixo de madeira com aparência muito pesada que pendurava no pescoço, ela tinha medo. Afinal, se Jesus está com ela, quem estaria comigo? Pensou... Abaixou a cabeça e passou por madre Ângela. Prendeu a respiração na tentativa de ficar invisível... Ufa, conseguiu. Duas vitórias no mesmo dia. Havia vencido o monstro da matemática e a madre má que tinha a cruz entre os seios. Só não havia vida suficiente naquela pequena menina, para conscientizá-la de que um dia, numa oportunidade breve, estaria diante da madre novamente e que na semana seguinte não haveria como escapar daquela bendita prova. Mas, como a vida ensina, ela aprendeu. Aprendeu que todas as vezes que um dente de leite estava mole, ficava ansiosa, mas era inevitável que ele caísse. Que quanto mais tentava preservá-lo, mais ansiedade e incômodo lhe causava. Dentes de leite se vão... Melhor que caíssem tão logo estivessem moles. Aprendeu que melhor se preparar para a prova e enfrentá-la de uma vez, a adiar um teste que será implacável na segunda chamada. Que prender a respiração não a tornava invisível. Melhor erguer a cabeça e respirar, mesmo quando não há nada a dizer. Aprendeu também que cara feia e aspectos rudes podem esconder um grande coração e, sobretudo, que Jesus está com todos, não na forma triste de uma cruz pesada no pescoço de uma madre ou de qualquer indivíduo que use o acessório levianamente, mas está em cada aprendizado, cada respingo de sangue de um dente que se vai e em cada equação matemática, aparentemente incalculável, que a vida pode apresentar.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Revelação


Numa caminhada no bosque... Sim num bosque aqui na minha cidade, muito freqüentado por crianças porque nele há um jardim zoológico, com animais silvestres soltos, alguns velhinhos se exercitando a passos lentos, casais namorando, sombra fresca e uma brisa que cheira jaula de hipopótamo, tive uma epifania! Percebi que havia me libertado do tédio. Percebi assim, sem pensar, apenas notei. Notei que não moro mais no mesmo bairro, que não uso mais o mesmo perfume, que mudei o estilo de vida, que mudei o paladar para certos alimentos, que não aprecio mais cabelos grisalhos e agora o que conta é a elegância... Mudo constantemente o caminho para o trabalho. Neste mês já mudei 3 vezes o cabelo (tudo bem, sei que é um exagero). Não caminho mais na lagoa do taquaral, já não vou mais à mesma padaria e descobri outro posto de gasolina. Já não almoço mais aos domingos naquele restaurante tão confortavelmente conhecido por mim e minha família. Eu que andava generalista, fatalista, quase pedra bruta, resolvi redescobrir o que é único, o individual. Cada lugar é um novo lugar, com paisagens novas. Cada pessoa é única, com características únicas. Cada novo amigo é uma nova oportunidade de conhecer outra vida. Cada novo beijo, cada novo abraço... Não estou trancada entre grades, estou livre e percebi que não usufruía como deveria desta liberdade. E como é bom!!! Como é bom ver cada hora como uma hora que não volta mais, cada filme como um novo roteiro, cada notícia como uma nova notícia (apesar das fatalidades se mimetizarem) cada sorriso é um sorriso com uma emoção, assim como as dores. Mudei o esmalte, mudei o pensar... Acho que tem a ver com essa coisa dos quarenta que se aproxima.

Sou única. Não há ninguém neste mundo igual a mim. E cada árvore é uma árvore, cada animal de estimação que tive tem sua característica própria, meus filhos são diferentes, meus alunos, meus amigos... Uma sensação de liberdade tomou conta de mim. As pessoas são diferentes. Que bom!!! Vivi tantos anos e fui generalizando a vida e assim, num passe de mágica, resolvi especializá-la. Esta foi a epifania do dia 3 de novembro. Tudo é único, portanto especial e merece cuidado, justamente por não haver outro igual. Não sei se Goethe, Jesus Cristo, Santo Agostinho, Nietsche... Sei lá quem anunciou isso, mas o fato é o que eu senti hoje. Antes assim, sei de gente que morre generalizando a vida e eu a descobri rara, preciosa e merecedora de muito cuidado.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Nenhum


Lembrei que sou humana. Deitei-me na cama, um livro nas mãos e a luz acesa. Queria ler, na verdade queria dormir, mas percebi meu humor alterado, então, no segundo entre abrir o livro e me ajeitar no travesseiro, me perdi na reflexão dos porquês. Por que estou há um mês doente, gripada com a garganta inflamada? Perguntei a mim mesma o porquê não durmo sem remédio e por que ando comendo como uma retirante. Por quê não tenho escrito mais nada. Será que não escreverei nunca mais? Fiquei imaginando as palavras na sua devida ordem, inspiradas em algum acontecimento... Mas qual? Minhas idas ao médico? Os antigripais e as conseqüentes dores no estômago? Ah, que assunto mais desinteressante. Ninguém quer ler sobre doenças e gripes sazonais, processos alérgicos e faringites causadas por voz mal colocada em uma sala de aula de sétimo ano que insiste em me enlouquecer. Queria ter mais inspiração. Queria ter alguma coisa mais intrigante, mais emocionante para contar... O fato é que a maré não está para peixe. Nem mesmo para conchinhas. Onda vai onda vem. Nada. Tudo bem, alguns trabalhos significantes, mas a garganta inflamada. Filhos felizes e tosse alérgica. Amigos reunidos, meu nariz congestionado. Sem cinema (no cinema tem ar condicionado, sem chance). Chuva lá fora corresponde à friagem... Credo, até mesmo doentes terminais demonstram mais expectativas com a vida que eu. Amo a vida, não tenho dúvidas. O problema todo é que tenho complexo de mulher maravilha. Acho que posso voar sobre o céu de Nova Iorque, ficar invisível, salvar a humanidade... Não envelhecer... Viver sozinha. De repente, não mais que num instante, adoeço. Isso me obriga ao recolhimento e consequentemente à reflexão. Sou mãe, sou dona de casa, sou professora, sou filha, sou consumista, sou ansiosa, sou exigente... Sou frágil, sou de carne, osso, coração e, às vezes sou lágrima, sou vírus, sou pressão baixa, pressão alta, sou nostalgia, sou solidão. Dentre todos os porquês, um onde. Onde está o amor? Onde está o perfume do meu amor? Onde está o abraço, os braços, a boca, o gosto do meu amor? Onde andará o meu amor? É... Ao contrário do que afirmava, espero. Espero este amor sim, por mais que afirme que estou preparada para caso ele não chegue... Mentira, mentira das bravas. Retiro esta afirmação. Não quero desencontrar este amor. Não quero o lado direito da cama vazio, nem mesmo me encolher no edredom quando a noite estiver fria. Sou Andrea, mulher, fico doente, tenho TPM, me sinto menos às vezes (eu disse às vezes). Não quero voar. Quero sonhar acordada, não quero ser super herói. Quero ser salva, não quero ser ética e quero fazer meus truques quando necessário. Quero coragem. Coragem para me despedir daquilo que fui obrigada a contratar. A roupa de invencível, a máscara de resolvida, a ilusão de imortal. Sou de carne, osso, alma, desejo, sonhos, sentimentos (nobres e perversos). Funciono a energia eólica. Ar, muito ar nos pulmões para suspiros de amor, de saudade, de prazer, de emoção. Humanos respiram.
Com licença, preciso do meu naridrin, tenho o nariz entupido. Até mais.